IRISH INSTITUTE - Instituto Brasil-Irlanda


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Atualizado em
05-11-2008
© Copyright 2007-2008 por Instituto Brasil-Irlanda. Todos os Direitos Reservados.

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IRISH INSTITUTE - INSTITUTO BRASIL IRLANDA

R. Araújo, 165 Cj. 30
CEP 01220-020 São Paulo SP            info@irishinstitute.com.br

Atendimento: terças e quintas, das 14 ás 17h30.

Opening hours: Tuesdays and Thursdays 2 pm until 5.30 pm.



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 ESTATUTOS SOCIAIS DO INSTITUTO BRASIL—IRLANDA

CAPÍTULO I – DA DENOMINAÇÃO, SEDE E FINS

Art. 1º- O INSTITUTO BRASIL—IRLANDA , que usará o nome fantasia IRISH INSTITUTE, fundado em 5 de novembro de 2007, é uma associação civil sem fins lucrativos, constituindo pessoa jurídica de direito privado cuja duração será por prazo indeterminado, e terá sua sede e seu foro nesta capital do Estado de São Paulo, na Rua Araújo, 165, 3º andar, conjunto 30 A, CEP 01220-020, sendo regido pelos presentes Estatutos Sociais.

Art. 2º- Este Instituto tem por finalidade a promoção e o intercâmbio de todos os ramos da cultura e das artes, bem como dos esportes, da ética, da paz, da cidadania, dos direitos humanos e demais valores comuns aos dois países.

§ 1º- Essa promoção dar-se-á por meio da realização de campanhas educativas, atividades recreativas e culturais, cursos e seminários, desenvolvimento e execução de projetos de interesse de ambos os países, apresentação de shows de cinema, teatro e atividades análogas, realização de feiras educacionais, arrecadação e conseqüente doação ou financiamento de recursos humanos, físicos e financeiros, prestação de serviços intermediários de apoio a outras instituições sem fins lucrativos e a órgãos do setor público que atuem em áreas afins e treinamento, recrutamento e seleção de mão de obra.

§ 2º- É terminantemente vedada a distribuição pelo Instituto, entre seus associados, conselheiros, diretores, empregados ou doadores, de eventuais excedentes operacionais brutos ou líqüidos, dividendos, bonificações, participações ou parcelas de seu patrimônio, auferidos mediante o exercício de suas atividades, e os reverterá integralmente na consecução das suas finalidades estabelecidas no Art. 1º.

Art. 3º- No desenvolvimento de suas atividades, o Instituto observará os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, economicidade e eficácia, e não fará qualquer discriminação de condição social, raça, cor, gênero e credo político e religioso.

Art. 4º- O Instituto ordenará seu funcionamento por meio de Ordens Normativas, emitidas pela Assembléia Geral, e Ordens Executivas, emitidas pela Diretoria.

Art. 5º- No cumprimento de suas finalidades o Instituto será organizado em tantas unidades administrativas quantas forem necessárias, ficando estas subordinadas às disposições destes Estatutos.

Parágrafo Único – Os serviços de educação que o Instituto venha a prestar serão exercidos de forma inteiramente gratuita e com recursos próprios, proibido seu condicionamento a qualquer doação, contrapartida ou equivalente.

CAPÍTULO II – DOS ASSOCIADOS

Art. 6º- O Instituto será constituído por número ilimitado de associados, distribuídos nas seguintes categorias:

I – fundadores – aquelas pessoas físicas, com direito a voto vitalício, que, presentes na Assembléia de fundação, subscreveram a ata de constituição do Instituto;
II – contribuintes – todas as pessoas físicas ou jurídicas que colaborarem para a realização dos objetivos do Instituto e contribuírem com quantia estabelecida pela Assembléia Geral de forma espontânea;
III – beneméritos – todas as pessoas físicas ou jurídicas que oferecerem excepcionais contribuições para a realização dos objetivos sociais;
IV – honorário – Sua Excelência o Senhor Embaixador da República da Irlanda perante a República Federativa do Brasil.

Art. 7º- São direitos de todos os associados, quites com suas obrigações sociais:

I – votar e ser votado para os cargos eletivos, após um ano da admissão aos quadros do Instituto;
II – participar da direção do Instituto por meio das Assembléias Gerais, nas quais terão direito somente a voz enquanto não completarem um ano de associação;
III – participar de todas as atividades do Instituto

Art. 8º- São deveres dos associados:

I – cumprir e fazer cumprir as disposições estatutárias, normativas e executivas;
II – acatar as deliberações da Assembléia Geral e da Diretoria;
III – prestar ao Instituto sua cooperação moral, intelectual e material e pugnar pelo engrandecimento do Instituto.

Art. 9º- Os associados, serão admitidos mediante proposta encaminhada por escrito à Diretoria, referendada por no mínimo dois associados de qualquer categoria, e não responderão, nem mesmo subsidiariamente, pelos encargos do Instituto.

Parágrafo Único - Os associados poderão desligar-se :

I- voluntariamente, mediante solicitação por escrito
II- por requerimento de qualquer membro,por decisão da maioria dos membros da Diretoria

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CAPÍTULO III – DA DIRETORIA

Art. 10- O Instituto será administrado por:

I – Assembléia Geral;
II – Diretoria;
III – Conselho Fiscal.

Parágrafo Único – O Instituto poderá remunerar seus dirigentes que efetivamente atuem na gestão executiva e aqueles que lhe prestem serviços específicos, respeitados, em ambos os casos, os valores praticados pelo mercado da capital do Estado de São Paulo.

Art. 11- A Assembléia Geral, órgão supremo e soberano do Instituto, será constituída pelos associados em pleno gozo de seus direitos estatutários.

Art. 12- Compete à Assembléia Geral:

I – eleger a Diretoria e o Conselho Fiscal;
II – decidir sobre reformas destes Estatutos, na forma do Art. 33;
III – decidir sobre a extinção do Instituto, nos termos do Art. 32;
IV – decidir sobre a conveniência de alienar, transigir, hipotecar ou permutar bens patrimoniais, concedendo autorização à Diretoria para tal fim;
V – expedir Ordens Normativas contendo diretrizes para o funcionamento do Instituto;
VI – discutir e deliberar sobre todo e qualquer assunto do interesse do Instituto;
VII – decidir sobre a destituição dos administradores que será feita por maioria absoluta dos membros presentes à assembléia especialmente convocada para este fim

Art. 13- A Assembléia Geral realizar-se-á, ordinariamente, no primeiro trimestre de cada ano para:

I – aprovar a proposta de atividade anual do Instituto, apresentada pela Diretoria;
II – apreciar o Relatório Anual da Diretoria;
III – discutir e homologar as contas e o balanço aprovados pelo Conselho Fiscal.

Art. 14- A Assembléia Geral realizar-se-á, extraordinariamente, quando convocada:

I – pela Diretoria;
II – pelo Conselho Fiscal;
III – por requerimento da maioria absoluta dos associados quites com suas obrigações sociais.

Art. 15- A convocação da Assembléia Geral far-se-á por meio de edital afixado na sede do Instituto e por meio de carta simples a todos os associados com direito a voto, com antecedência mínima de dez (10) dias.

§ 1º- Qualquer Assembléia será instalada, em primeira convocação, com a presença da maioria dos associados e, em segunda convocação, com qualquer número de associados presentes, e suas deliberações serão tomadas por maioria simples.

§ 2º- Quando a Assembléia Geral for convocada pelos associados as deliberações somente serão válidas se o número de presentes for igual ou superior ao número de assinaturas contidas na convocação.

Art. 16- O Instituto adotará práticas de gestão necessárias e suficientes para impedir a obtenção, de forma individual ou coletiva, de benefícios ou vantagens pessoais decorrentes da participação em seus processos decisórios.

Art. 17- A Diretoria é o órgão executivo e administrativo do Instituto e será constituída por um Presidente, um Vice-Presidente, Primeiro e Segundo Secretários e Primeiro e Segundo Tesoureiros, todos eleitos pela Assembléia Geral para mandato de cinco (5) anos, permitida somente uma reeleição para o mesmo cargo.

Parágrafo Primeiro – Sua Excelência o senhor Embaixador da República da Irlanda acreditado perante a República Federativa do Brasil exercerá o cargo de Presidente Honorário do Instituto.

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Art. 18- Compete à Diretoria:

I – elaborar e submeter à Assembléia Geral a proposta de atividades anuais do Instituto;
II – executar as propostas de atividades aprovadas pela Assembléia Geral;
III – elaborar e apresentar à Assembléia Geral o Relatório Anual;
IV – buscar a colaboração de instituições públicas e privadas de ambos os países para mútua colaboração em atividades de interesse comum;
V – admitir e demitir funcionários;
VI – implementar as Ordens Normativas expedidas pela Assembléia Geral, bem como emitir Ordens Executivas para o funcionamento do Instituto;
VII – deliberar sobre a convocação das Assembléias Gerais;
VII – apreciar a admissão de novos associados

Art. 19- A Diretoria reunir-se-á ordinariamente uma vez por mês e extraordinariamente sempre que necessário, por convocação do Presidente ou pela maioria dos Diretores.

Art. 20- Compete ao Presidente:

I – representar o Instituto judicial e extrajudicialmente;
II – cumprir e fazer cumprir estes Estatutos e as Ordens Normativas;
III – convocar e presidir a Assembléia Geral;
IV – convocar e presidir as reuniões de Diretoria;
V – superintender os trabalhos do Instituto, coordenando o trabalho dos demais diretores;
VI – constituir procuradores, após aprovados pela Diretoria;
VII – juntamente com o Primeiro Tesoureiro, autorizar a movimentação de fundos e abrir, movimentar e encerrar contas bancárias.

Art. 21- Compete ao Vice-Presidente:

I – substituir o Presidente em suas ausências e impedimentos ou por delegação de poderes;
II – assumir o mandato, em caso de vacância, até o seu término;
III – prestar, de forma geral, colaboração ao Presidente.

Art. 22- Compete ao Primeiro Secretário:

I – superintender, organizar e dirigir os trabalhos da Secretaria;
II – secretariar as reuniões da Assembléia Geral e da Diretoria, redigindo suas atas;
III – publicar editais e todas as notícias das atividades e do interesse do Instituto.
IV – conservar, sob sua guarda e responsabilidade, os documentos relativos à Secretaria.

Art. 23- Compete ao Segundo Secretário:

I – substituir o Primeiro Secretário em suas ausências e impedimentos;
II – assumir o mandato, em caso de vacância, até o seu término;
III – prestar, de forma geral, colaboração ao Primeiro Secretário.

Art. 24- Compete ao Primeiro Tesoureiro:

I – arrecadar e contabilizar as contribuições dos associados, rendas, auxílios e doações, mantendo em dia a escrituração contábil do Instituto;
II – pagar as contas autorizadas pelo Presidente;
III – apresentar relatórios de receitas e despesas, sempre que for solicitado;
IV – apresentar ao Conselho Fiscal a escrituração do Instituto, incluindo os relatórios de desempenho financeiro e contábil e sobre as operações patrimoniais realizadas;
V – conservar, sob sua guarda e responsabilidade, os documentos relativos à Tesouraria;
VI – manter todo o numerário do Instituto em estabelecimento oficial de crédito.

Art. 25- Compete ao Segundo Tesoureiro:

I – substituir o Primeiro Tesoureiro em suas faltas e impedimentos;
II – assumir o mandato, ocorrendo vacância, até o seu término;
III – prestar, de forma geral, colaboração ao Primeiro Tesoureiro.

Art. 26- O Conselho Fiscal será constituído por três (3) membros e seus respectivos suplentes, eleitos pela Assembléia Geral.

§ 1º- O mandato do Conselho Fiscal será coincidente com o da Diretoria;

§ 2º- Em caso de impedimento ou vacância, o mandato será assumido pelo respectivo suplente; ocorrendo vacância, será o mandato assumido até seu término.

Art. 27- Compete ao Conselho Fiscal:

I – examinar os livros de escrituração do Instituto;
II – opinar sobre os balanços e relatórios de desempenho financeiro e contábil e sobre as operações patrimoniais realizadas, emitindo parecer para os organismos de direção do Instituto;
III – requisitar ao Primeiro Tesoureiro, a qualquer tempo, documentação comprobatória das operações econômico-financeiras realizadas pelo Instituto;
IV – acompanhar o trabalho de eventuais auditores externos independentes;
V – verificar o estado do caixa e os valores em depósito;
VI – convocar extraordinariamente a Assembléia Geral, mediante solicitação escrita ao Presidente.

Parágrafo Único – O Conselho Fiscal reunir-se-á, ordinariamente, a cada seis meses, e, extraordinariamente, sempre que necessário.

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CAPÍTULO IV – DO PATRIMÔNIO

Art. 28- O patrimônio do Instituto será constituído por bens móveis, imóveis, veículos, semoventes, ações e títulos da dívida pública a ele pertencentes ou que vierem a ser adquiridos por compra, doação ou legado, contribuições, donativos, auxílios e subvenções de qualquer tipo ou natureza, oriundos de entidades públicas ou privadas.

Parágrafo Único – Todos os bens, rendas, recursos e eventuais resultados operacionais serão aplicados, exclusivamente no território nacional, na manutenção e no desenvolvimento dos objetivos sociais.

Art. 29- Ocorrendo a dissolução do Instituto, o respectivo patrimônio líqüido será transferido a pessoa jurídica qualificada nos termos da Lei 9790/99, preferencialmente que tenha o mesmo objetivo social.

Art. 30- Na hipótese de o Instituto obter e posteriormente perder a qualificação instituída pela Lei 9790/99, o acervo patrimonial disponível, adquirido com recursos públicos durante o período em que perdurou aquela qualificação, será contabilmente apurado e transferido a outra pessoa jurídica qualificada nos termos da mesma Lei, preferencialmente que tenha o mesmo objetivo social.

CAPÍTULO V – DA PRESTAÇÃO DE CONTAS

Art. 31- A prestação de contas do Instituto observará as seguintes normas:

I – os princípios gerais de contabilidade e as Normas Brasileiras de Contabilidade;
II – a publicidade, por qualquer meio eficaz, ao encerramento do exercício fiscal, do relatório de atividades e das demonstrações financeiras do Instituto, incluindo as certidões negativas de débitos fiscais do INSS e do FGTS, colocando-os à disposição para o exame de qualquer cidadão;
III – a realização de auditoria, inclusive por auditores externos independentes, se for o caso, da aplicação dos eventuais recursos objeto de Termo de Parceria firmado com órgão público;
IV – a prestação de contas de todos os recursos e bens de origem pública recebidos será feita conforme determina o parágrafo único do Art. 70 da Constituição da República Federativa do Brasil.

CAPÍTULO VI – DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 32- O Instituto será dissolvido por decisão de Assembléia Geral Extraordinária convocada especialmente para esse fim quando, por qualquer razão, se tornar impossível a continuação de suas atividades.

Art. 33- Os presentes Estatutos poderão ser reformados, a qualquer tempo, por decisão da maioria absoluta dos associados, em Assembléia Geral Extraordinária especialmente convocada para esse fim, e a reforma entrará em vigor na data de seu registro em cartório.

Art. 34- O exercício fiscal coincide com o ano civil.

Art. 35- Os casos omissos serão resolvidos pela Diretoria e referendados pela Assembléia Geral.

Presidente: Maria Alice Ancona Lopez
Alfredo Spinola de Mello Neto
OAB/SP 50.097

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 REINVENTANDO O BRASIL

Releituras e renovação nas narrativas de viajantes irlandeses


Izarra, Laura (org.) LITERATURAS ESTRANGEIRAS E O BRASIL: DIÁLOGOS. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2004.159-176.


Laura P. Zuntini de Izarra.
Professora Doutora do Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo.

Translated into English by P O’Neill (Vice President of the Institute) and Gloria Karam Delbim

--> www.irlandeses.org/0607izarra1.htm

O Brasil é um espaço geográfico que exerce grande atração no contexto global da história dos deslocamentos. “Gigante pela própria natureza” e pelo caráter de seu povo, a imagem de suas riquezas naturais, unidade e segurança tem alimentado por vários séculos o imaginário de estrangeiros vindos de vários cantos do mundo para concretizarem suas utopias nestas terras tropicais. Seu território se transforma em um espaço diaspórico onde os imigrantes, que fizeram parte dos mais diversos tipos de diásporas, interagem com sujeitos que são construídos e representados como um povo generoso e hospitaleiro. Marilena Chaui em Brasil. Mito fundador e sociedade autoritária, desconstrói a imagem interna de representação de uma nação com identidade única e indivisível, com habitantes pacíficos e ordeiros, alegres e trabalhadores. Ela se aprofunda nas entranhas dessas representações que reativam o mito fundador e fazem com que este se repita indefinidamente, e desvenda os paradoxos que conformam a identidade do povo brasileiro. Chaui afirma que “o mito fundador oferece um repertório inicial de representações da realidade e, em cada momento da formação histórica, esses elementos são reorganizados tanto do ponto de vista da hierarquia interna (isto é, qual o elemento principal que comanda os outros) como da ampliação de seu sentido (isto é, novos elementos vêm se acrescentar ao significado primitivo)” (p. 10). Sendo assim, perguntamos, como as narrativas de viajantes estrangeiros e imigrantes interpretam e reinventam essas representações produzidas pela fundação para adequá-las a momentos históricos e a ideologias que alimentam deslocamentos transnacionais? Que imagens do Brasil eles constroem, por que e como circulam?

O objetivo deste ensaio é analisar as imagens do mito fundador presentes nas narrativas de viajantes irlandeses do fim do século XIX em contraponto com as imagens do fim do século XX, construídas pelo poeta irlandês Paul Durcan na sua visita ao Brasil em 1995. A pergunta seguinte seria, porque focalizamos as narrativas irlandesas e não inglesas em geral, quando as primeiras se dissolvem na linguagem das segundas após mais de dez séculos de dominação inglesa? Ao analisar o mito fundador, Chaui aponta para os escritos medievais que, no nível simbólico, consagraram um mito poderoso na história das grandes navegações, “as chamadas Ilhas Afortunadas ou Ilhas Bem-aventuradas, lugar abençoado, onde reinam primavera eterna e juventude eterna, e onde os homens e animais convivem em paz” (p. 59), de acordo com as tradições fenícia e irlandesa. Braaz, assim designada pelos fenícios, ou Hy Brazil, assim designada pelos monges irlandeses, aparece nos mapas dos séculos XIV e XV, como uma ilha dividida por um grande rio, Insulla de Brazil ou Isola de Brazil, ao oeste da Irlanda e ao sul dos Açores. A menção às origens irlandesas do nome Brasil foi tema de uma palestra escrita pelo diplomata irlandês Roger Casement quando era cônsul britânico em Belém do Pará em 1907.1 O texto inicia


1 A palestra se encontra na Biblioteca Nacional da Irlanda. Angus Mitchell e Geraldo Cantarino a publicaram em forma de panfleto bilíngüe intitulado Origins of Brazil: A search for the origins of the name Brazil com o apoio da Embaixada Brasileira em Londres como parte da comemoração do “Festival Brasil 500”. Defensor dos direitos humanos, Roger Casement (1864-1916) foi cônsul britânico na África (1895-1904), no Brasil em Santos (1906), Belém do Pará (1907) e Rio de Janeiro (1908) e após muitos anos de dedicação ao serviço diplomático britânico, passou a defender a causa nacionalista irlandesa. Em 1916 foi condenado e enforcado por alta traição contra a Coroa Britânica.

com a sublimação do nome Brasil que tem o som “mais doce entre as grandes nações da Terra”, mas afirma que só lhe interessou saber sua origem após desembarcar como Cônsul em Santos em 1906. Refutando a teoria de que o Brasil tenha recebido tal nome em decorrência da abundância do pau-brasil, que logo após o descobrimento se tornou parte constitutiva da abertura de novos mercados para o capitalismo mercantil europeu, Casement tenta demonstrar como, naquela época, todo conceito associado com a Irlanda era “apagado” devido ao preconceito gerado pela visão da Inglaterra para com um povo dominado, “uma raça de bárbaros profissionais [que vivia] em esquálida miséria sem paralelo na civilização” (p. 34). Ele reconhecerá mais tarde a dimensão satânica da participação direta ou indireta da Grã-Bretanha nas violações humanitárias cometidas na África e na América do Sul denunciadas em seus diários, e se rebelará contra esse poder, sendo condenado à morte por sua participação no Levante da Páscoa, insurreição republicana irlandesa em 1916. Por outro lado, seus escritos revelam os indicadores que constroem a imagem celebratória do Brasil. Casement confirma que a Irlanda “é o berço da lenda que durante séculos colocou a mente de muitos homens em direção ao ocidente em busca dessa terra fabulosa”: [O Brasil] deve seu nome à Irlanda – à lenda e ao imaginário irlandês – nascido antes do alvorecer da história numa centena de formas de narrativas e poemas, traduzidos por toda a Europa ocidental, até que toda a Europa ocidental conhecesse, sonhasse e adorasse essa história, e cartógrafos atribuíssem o seu lugar nos mapas-múndi. (p. 38-9).

A terra do “além mar” inspirara, em diferentes momentos políticos, pensamentos utópicos, especialmente dos que sofriam os efeitos da Grande Fome e a dominação inglesa de meados do século XIX. Este período histórico testemunha a diáspora irlandesa para as Américas, sendo os países de língua inglesa, língua imposta aos irlandeses desde o século XVIII através das “Penal Laws”, o destino da maioria desses emigrantes. Porém, um número menor de irlandeses inspirados pelos relatos de viagens e cartas daqueles que se esta beleciam ao sul do Equador, se dirigiram para América do Sul, onde tiveram que enfrentar o convívio com outras culturas e o desafio de aprender suas línguas. Provavelmente, alguns emigrantes escolheram as terras tropicais como destino porque essas narrativas reavivaram o imaginário que tinha incorporado na memória folclórica do povo irlandês a lenda milenar Hy Brazil com a sagração de sua natureza, um originário Jardim do Éden. Porém, o maior grupo dessa segunda onda migratória se radicou na Argentina onde formaram uma comunidade política, religiosa e economicamente unida, fundando meios de comunicação próprios que a consolidaram, como por exemplo, os jornais The Standard (1861-1959), The Southern Cross (1875 até o presente), Fianna (1910-1912), The Hibernian- Argentine Review (1906-1927).

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No Brasil, embora haja alguns registros de imigrantes irlandeses anteriores a 1827, é nessa data que dois mil e quatrocentos irlandeses de Cork e Waterford, incluindo mulheres e crianças, são trazidos como soldados mercenários, sob o comando do oficial irlandês Coronel Cotter, a serviço da nova armada imperial brasileira, para lutar na guerra contra a Argentina pelas terras litigiosas que hoje fazem parte de Uruguay. Uma vez finalizada a guerra, ficariam para trabalhar nos campos que precisavam de muita mão-de-obra. Porém, o governo brasileiro não cumpriu com o pagamento prometido – a concessão de acomodação, alimentação e terras. Após o fracasso do confronto militar, e de um motim sangrento que durou três dias, realizado por 200 soldados do regimento irlandês insatisfeitos com a omissão do governo, muitos foram deportados. Não entanto, algumas dessas famílias se assentaram em Taperoá, na Bahia, numa colônia chamada Santa Januária, outras fundaram uma colônia agrícola no Rio Grande do Sul, e outros se espalharam pelo Paraná e Santa Catarina.

Aproximadamente quatro décadas depois dessa frustrante experiência, o irlandês William Scully funda no Rio de Janeiro o jornal The Anglo-Brazilian Times (1865-1884) e se torna o propagador de uma imagem positiva do Brasil na Irlanda: é a terra que oferece “maiores oportunidades” do que os outros países escolhidos pelos emigrantes. Scully negocia com o governo e promete aos irlandeses que receberiam imediatamente seu salário ao desembarcarem no Brasil, contrariamente ao que tinha acontecido no passado. Na sua carta ao clero da Irlanda em 1866,2 pede que incentivem a vinda dos que trabalham nos campos e compara os benefícios deste país com relação aos Estados Unidos. Scully reforça o mito do clima paradisíaco dos escritos medievais (a primavera eterna) – este é mais saudável, “o calor do verão nunca chega aos extremos” e os invernos se assemelham mais ao verão irlandês, “apesar de serem mais quentes no norte e mais frios no sul e no interior, onde geadas acontecem ocasionalmente”. Ele também afirma que há tolerância religiosa, embora a religião oficial seja a Católica Romana, e propaga a justiça e o espírito de progresso do país – as leis que protegem o indivíduo e a propriedade são semelhantes às irlandesas e o imigrante pode se naturalizar após dois anos de residência contra cinco nos Estados Unidos.

Portanto, o editor do The Anglo-Brazilian Times se apropria das ideologias que acompanham o movimento histórico de formação da nação. Além da celebração da Natureza, o nativismo romântico do século XIX também fundava a imagem de um povo pacífico, sem discriminação de raça e credo. Scully divulga a imagem do povo que o irlandês encontrará no Brasil e escreve que este receberá muito afeto, demonstrado de várias formas “como na sua terra natal”, e não experimentará o “desprezo não escondido que o nativo americano mostra ao irlandês “bruto” até que os cinco anos de residência o habilitem para o voto”. Os elementos que constituem o mito fundador ficam evidentes – a grandeza do país e a oferta de oportunidades para todos, sem preconceito das diferenças. Segundo Marilena Chaui, a idéia de não existência de preconceito faz parte dos efeitos produzidos pelo Brasil-Natureza, já que esse ocultamento foi decisivo na fundação do mito porque “o ordenamento jurídico natural, por ser uma hierarquia de perfeições e poderes desejada por Deus, indica que a Natureza é constituída por seres que naturalmente se subordinam uns aos outros” – é a servidão voluntária (p. 64-5). Também


2 Carta publicada em The Anglo-Brazilian Times, n. 41, Anno II, Rio de Janeiro, 9 October 1866.

está presente o que ela chama de sagração da história, que faz do Brasil “o país do futuro”, assegurado pela presença da instituição eclesiástica e da tolerância religiosa. Entre as primeiras representações que reescreveram o imaginário sobre Hy Brazil e alimentavam as narrativas acima mencionadas, estão as dos viajantes irlandeses, como por exemplo, A Search for Fortune (Um jovem irlandês no Brasil em 1874), de Hamilton Lindsay-Bucknall, que retrata suas impressões sobre a Argentina e o Brasil na década de 1870, e os livros de Michael Mulhall e sua mulher Marion que moravam em Buenos Aires, mas viajaram pelo Brasil em várias ocasiões durante suas férias. Michael era editor do jornal The Standard com seu irmão Edward Thomas Mulhall, fundador do mesmo. Michael e Marion escreveram diários de viagens onde registravam suas impressões sobre os lugares que visitavam e sobre o progresso econômico do país. Suas narrativas, publicadas em forma de cartas no seu jornal Buenos Ayres Standard, incorporam também elementos do mito fundador que produziram invenções históricas e construções culturais sobre o espaço geográfico e o povo que o habita. Enquanto em Handbook of Brazil (1878) Michael Mulhall e seu irmão mostram o “Brasil progressista”, em Rio Grande do Sul and its German Colonies (1873), Michael recomendava Porto Alegre por seu “cenário maravilhoso e povo amável, tão pouco conhecido pelo mundo exterior”. O olhar aventureiro de Marion como primeira mulher ‘inglesa’ 3 a “penetrar no coração da América do Sul” transparece no seu livro Between the Amazon and Andes; or Ten Years of a Lady’s Travels in the Pampas, Gran Chaco, Paraguay and Mato Grosso. As narrativas sobre suas viagens e aventuras nos países entre o Amazonas e os Andes eram escritas e ilustradas com seus próprios desenhos, com a esperança de chamar a atenção dos “viajantes mais esclarecidos para um quarto do mundo que vale o trabalho de ser explorado”. Assim, as paisagens pastoris do Rio de Janeiro, mostrando a Baía de Guanabara, contrastavam com a terra


3 Os Mulhall eram Unionistas, isto é, defensores da Irlanda como parte do Reino Unido, em oposição ao movimento nacionalista irlandês.

exótica e cheia de aventuras do Mato Grosso. Suas descrições enfatizam a beleza natural do cenário, que apesar das dificuldades da viagem, “o interesse por explorar a terra incógnita não lhe permite pensar em abandonar a empreitada”. Ela escreve:

Levou vinte e quatro dias daqui até Cuyabá em canoas dirigidas por índios civilizados que não podiam remar porque as águas do San Lorenzo estavam muito baixas, e eles tinham que empurrar o barco contra a corrente, com paus altos, cerca de trinta milhas por dia. Se eles ficavam sem provisões, matavam macacos, porque grande parte da viagem era através de pântanos e florestas destituídas de toda habitação humana. (p. 192)

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O encontro com os índios lembra os quadros de João Maurício Rugendas, que retratam esses encontros como sendo sempre pacíficos, desprovidos das tensões provocadas pelo contacto com a própria natureza selvagem, ou pelo desconhecimento e diferenças culturais entre os europeus e os nativos do lugar. Essa visão mítica


As ilustrações são litografias reproduzidas com autorização da Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. In: Marion Mulhall, Between the Amazon and Andes: or Ten Years of a Lady’s Travels in the Pampas, Gran Chaco, Uruguay and Matto Grosso. London: Stanford, 1881.

do Brasil-Paraíso, despossuída de história, está visível tanto nas narrativas quanto nos desenhos de Marion. Quando encontra algumas canoas com índios Guatos pescando no rio, ela os descreve como uma “raça muito bonita, e nem homens nem mulheres estão tatuados”, símbolo do primitivismo ou do demoníaco do ponto de vista eurocêntrico:

Cada canoa tinha um homem e uma mulher e às vezes uma ou duas crianças, as últimas eram tão claras que qualquer um poderia achar que eram inglesas. As mulheres dirigiam as canoas enquanto os homens pescavam. (p. 196)

Os desenhos mostram os índios em vestimentas que remetem a uma cultura européia, belos, altos, simples e inocentes, sempre com uma natureza exuberante e edênica como paisagem de fundo, sem a violência da vegetação natural ou dos animais do meio ambiente. Porém, esse apagamento de conflitos que Mary Louise Pratt (1992) identifica como gerados pelas assimetrias de poder nas zonas de contato e que contrastam com a imagem do estado puro da Natureza e os seres que o habitam, se tornam implicitamente visíveis na representação que Marion Mulhall faz dos índios incivilizados e mais violentos, carregando-a do preconceito do homem branco, que os descreve como viciados em bebida além de selvagens. Muitos outros exemplos aparecem nessas narrativas de viagens da virada do século XIX. Mas como esses elementos do mito fundador são interpretados e reescritos, ou contestados, no fim do século XX? De que forma eles se transformam na formação de um imaginário global dentro do contexto atual de emigrações econômicas, ou de movimentos ou deslocamentos transnacionais, quando a imagem de “gigante pela própria natureza” permanece? Quais são seus efeitos nas ideologias globais dominantes? Como eles se tornam elementos constituintes dos processos de construções de identidades híbridas ou de “novas etnicidades” (HALL, 1996)? Para responder a estas perguntas dirijimos nosso olhar ao livro do poeta irlandês Paul Durcan, intitulado Greetings to Our Friends in Brazil (1999).

Paul Durcan registra suas impressões do Brasil como se fossem um diário de viagens, e retrata nos seus poemas o dia-a-dia da vida atual por meio de uma linguagem coloquial e direta, fazendo uma viagem estética de recuperação da própria tradição cultural a partir de uma perspectiva pluralista. Segundo Charlie Boland (2001), “a poesia de Durcan pode ser vista como uma procura interior e uma viagem exterior” (p. 124). Nesse sentido, reconhecemos que seus poemas apresentam sempre um movimento com uma introspecção cultural, mas por outro lado, nesses deslocamentos no espaço e no tempo, Durcan se apropria de ícones e mitos de várias culturas para resignificá-los e transformar o imaginário global. Os elementos fundadores do Brasil, que foram incorporados nas narrativas dos viajantes no passado, são desconstruídos e desmitificados nos seus poemas – tanto a sagração da natureza quanto o verdeamarelismo, a sagração da história e dos governantes, e os respectivos efeitos que eles provocam na construção identitária da sociedade, já claramente apontados por Chaui.

A Natureza está presente em vários de seus poemas, mas quando parece estar sendo sublimada, como por exemplo, em “Brazilian Presbyterian”,

[...] I sat on the dune
Under a coconut tree;
Diving in and out
Of the South Atlantic;
At fifty years of age
A nipper in excelsis. (p. 32)

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o que acontece na realidade é uma corrosão interna da imagem paradisíaca construída pela persona ao receber a resposta dada pelo jovem Evandro à pergunta, como imaginaria o céu?:

How would you – a young
Brazilian Presbyterian –
Imagine heaven? [...]
“Heaven [...] is a place [...]
That [...] would surprise you.” (p. 32)

A Natureza também é agente nos contextos dos poemas “The Geography of Elizabeth Bishop” e “Samambaia”, onde Paul Durcan descreve o Brasil através do olhar e da voz de Elizabeth Bishop: o espaço geográfico é a própria “vida antes do nascimento na terra”, é o paraíso, porém, é o país da descoberta dolorosa do eu:

There is life before birth
On earth – oh yes, on earth –
And it is called Brazil.
Call it paradise, if you will. (p. 23-4).

Essa terra não está atrelada à imagem do Éden, mas à dor da paixão e da vida. Nada permanece eternamente: o local, ora o Brasil, ora a Irlanda, “Nothing stays the same. / Everything changes/ [...] Nothing should stay the same. / Everything should change” (p. 22); a escolha entre o amor e a fama provocará a diferença: “I, Elizabeth, / do take you, Lota, / For my lawful, wedded cloud.” (p. 22) Os paradigmas são quebrados nas repetições e no ritmo sincopado de samba, e as fronteiras culturais e sexuais transpostas nos contratempos da métrica dos versos:

Reared in New England, Nova Scotia,
I was orphaned in childhood. [...]
Until aged forty on a voyage round Cape Horn
I stepped off in Rio, stayed, discovered
My mind in Brazil. Became again an infanta!.
A thinking monkey’s companero!
Fed, cuddled, above all needed. [...]
At forty I discovered that my voice –
That cuckoo hymen of mine, mine, mine –
Was a Darwinian tissue:
That in God’s cinema vérité
I was an authentic bocadinho.
Back in Boston, a late-middle-aged lady,
I became again an orphan, [...] (p. 23)

Se indagarmos como essa crença e representação de que o Brasil é um país acolhedor é sempre renovada, devemos também olhar para a origem do verdeamarelismo. Segundo Chaui, este surge com a consagração da imagem da excelência brasileira afirmada no tripé café, carnaval e futebol: O verdeamarelismo foi elaborado no curso dos anos pela classe dominante brasileira como imagem celebrativa do “país essencialmente agrário” e sua construção coincide com o período em que o “princípio de nacionalidade” era definido pela extensão do território e pela densidade demográfica. (p. 32) Representando a ideologia do país essencialmente agrário, articulado ao sistema colonial do capitalismo mercantil por ser uma colônia de exploração, o verdeamarelismo não desaparece com o modernismo e com o processo de industrialização e urbanização, como bem explica Chaui. Ele permanecerá no movimento cultural e representará a passagem da ideologia do caráter nacional para o da identidade nacional: “Se antes o verdeamarelismo correspondia à auto-imagem celebrativa dos dominantes, agora ele opera como compensação imaginária para a condição periférica e subordinada do país” (p. 36), entrando em cena o povo brasileiro. A democracia racial é mantida na nova imagem do “povo” que é “sobretudo, de um lado, o bandeirante ou sertanista desbravador de território e, de outro, os pobres, isto é, os ‘trabalhadores do Brasil’.” (p. 38). Durcan representa poeticamente essas diferenças do povo, como por exemplo, o menino engraxate de nove anos, no aeroporto de Congonhas, usando uma camiseta com as inscrições “Pacific Waves”, ou a sabedoria popular do paulista que “a vida é um jogo de cintura” (“Life is a game of the hips”). 4 O poeta desconstrói a passagem do “caráter nacional” para a identidade do povo brasileiro e questiona a imagem que ainda perdura de família fraterna, honesta, ordeira e pacífica, onde há oportunidades para todos, assim como faz com o mito do futebol.


4 Em “The Last Shuttle to Rio”. Greetings to Our Friends in Brazil, p. 17-9.

Em “Recife Children’s Project, 10 June 1995”, o poeta mostra o determinismo social do sistema governante que não permite a mudança da condição de sujeitos marginalizados, ao expressar que a creche dirigida pelo Padre irlandês Frank Murphy era para as crianças cujas mães trabalham nas ruas, vendendo seus corpos por não ter outra escolha. Durcan ironicamente descreve como o sacerdote irlandês de Wexford faz o sinal brasileiro de “tudo bem” com seus dedos polegares para cima quando termina de recitar os versos “Rage for Order” do poeta conterrâneo Derek Mahon e afirma “Isto é o que fazemos no Brasil” (“This is what we do in Brazil.”). A força estética do discurso poético se completa quando cruza as fronteiras e associa o religioso com o Che Guevara:

Father Frank Murphy, Founder of the Recife Children’s Project,
Thirty years working in the streets of Recife,
For whom poetry is reality, reality poetry,
Who does not carry a gun,
Who does not prattle about politics or religion,
Whose sign is the thumbs-up sign of Brazil,
Who puts his hand on your shoulder saying
“This is what we do in Brazil.”
Che? Frank!
No icon he –
Revolutionary hero of the twentieth century. (p. 16)

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O racismo e a discriminação continuam sendo apagados no sistema atual como efeito do mito fundador, e devido a isso Marilena Chaui termina seu livro no momento em que o país é incitado a festejar os seus 500 anos com a pergunta “Comemorar?”, há realmente o que comemorar? Ela afirma que a sociedade brasileira conserva as marcas da sociedade colonial escravista em sua estrutura fortemente verticalizada, onde as “relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece.” (p. 89) No poema “Fernando’s Wheelbarrows, Copacabana”, Durcan resgata as assimetrias da invisibilidade e as inverte, apelando para a ironia:

[...] Fernando’s forebears were slaves from Senegal.
Fernando is a free man, proudest of the proud.
I have requested that Fernando
Be my guide in Copacabana:
My guide, my governor, my master. (p. 20)
Porém, essa hierarquia invertida é ilusória. Todos os signos
de naturalização do povo como generoso, alegre e sensual, mesmo
quando sofredor, [...]

I rejoice in the remote way Fernando shakes my hand. I rejoice in the comotose stars of Fernando’s eyes. I rejoice in the reticence of Fernando’s laughter. (p. 20) apagam-se no clímax do poema quando as grandes diferenças “silenciadas” alimentam o desejo utópico de emigrar, escapar da miséria para “fazer a América”, só que o destino é a América do Norte: Phoenix, Arizona.

The only time Fernando breaks his silence
Is at the midpoint of our giro;
Fernando reveals to me his dream
Of emigrating to Phoenix, Arizona.
Fernando has a young wife and children.
He explains by means of his hands
And by two words – Phoenix, Arizona.
His hands with rhetorical ebullience exhort:
Phoenix, Arizona is the good life! (p. 21)

O futebol, parte do tripé verdeamarelo, é desconstruído no poema que dá o nome ao livro, “Greetings to Our Friends in Brazil”. Durcan descreve um domingo que poderia ser qualquer um se não fosse pelo convite recebido de seu amigo, o Padre Patrick O’Brien, para assistirem pela televisão à grande Final de futebol da Irlanda, entre Mayo e Kerry. O esporte ícone do povo brasileiro desencadeia um processo de sobreposição de duas e mais outras culturas quando Durcan transcreve poeticamente o comentário do repórter, que nos últimos minutos do jogo menciona, “We haven’t had time to send greetings to our friends in Brazil/ Proinnsias O Murchu and Rugierio da Costa e Silva”. Essa saudação carrega o halo mítico de um esporte popular equacionado ao Brasil que se transforma em um mito global. Mas Durcan, no processo de apropriação do mito, provoca um esvaziamento do seu valor intrínseco e, ironicamente, o esporte nacional que salva um povo subalterno do anonimato se transforma na tábua de salvação do sujeito em estado de depressão psicológica que enfrenta o significado da vida no sorriso da mulher indigente, a quem dá carona no caminho de retorno para casa:

For the remaining nine miles I held on to the driving wheel
As if it were the microphone on the bridge of a ship going down;
Going over the tops of the crests of the blanket bogs;
Navigating Bunnacurry, Gowlawaum, Bogach Bawn;
Muttering as if my life depended on it:
Greetings to our friends in Brazil. (p. 10)

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Os caminhos locais percorridos nesse domingo intersectam os caminhos da memória que dá vida aos “outros” – ao estranho – ao longo do poema, como por exemplo, ao soldado alemão que morava na casa de Achill Island, agora sua própria moradia; ou, a autobiografia de George Steiner lida pelo amigo que lhe empresta seu livro Jerome. As referências a lugares desertos como o Sahara, a Sibéria e Gobi aparecem lado a lado com a própria paisagem da costa oeste da Irlanda (Bunnacurry, Gowlawaum, Bogach Bawn), que abre outros caminhos para sua viagem interna evocando genocídios, limpezas étnicas, imprevidências, e a exegese da palavra misericórdia que o leva a orar no fim do poema: “Saudações aos nossos amigos em Brasil” (“Let me pray / Greetings to our friends in Brazil”). (p. 12) Boland analisa este poema e conclui que Durcan propõe uma experiência humana global ao invés de insular quando escreve sobre culturas diferentes. Ele acredita que essa sobreposição das experiências é a visão global do poeta que une experiências diversas através de uma história compartilhada de conflito, de sofrimento, e, potencialmente, de amizade” (p. 126). No entanto, penso que Durcan transcende essa polaridade do local e do global por meio de uma estética da simultaneidade do espaço e do tempo, rompendo os paradigmas da linearidade e logicidade do pensamento. Os movimentos centrífugos e centrípetos de sua mente criativa refletem um processo de expansão da consciência poética, de um olhar que vai além da experiência global do sujeito e se eleva a uma experiência surreal do cotidiano, do dia-a-dia do universo, de um caminhar por espaços geográficos estranhos que o levam sempre de volta para a “transcendência” das experiências do local de origem, para suas raízes milenares.

As viagens e deslocamentos geográficos e intelectuais levam o sujeito a compreender melhor a si mesmo, sua própria cultura, suas diferenças intrínsecas e suas interrelações. O Brasil é um país de imigrantes, fruto da miscigenação, exótico e sensual (em “Jack Lynch”, o pai vindo de Ballinasloe, “was devoured by a mulatto working-class goddess”), que na sobreposição das culturas e dos gêneros se auto-afirma no estranho e no local. Essas novas identidades híbridas, que surgem da intersecção de várias expressões culturais regionais e estrangeiras, são também produto das diásporas culturais, como o expressa em “The Daring Middle-Aged Man on the Flying Trapeze” onde Dublin e São Paulo se intersectam com o “outro” estranho, na celebração do Bloomsday no Finnegans Pub em São Paulo:

However, when I heard that on June 16
In Finnegans Pub in São Paulo
A Japanese actor would be declaiming in Portuguese
Extracts from Ulysses
my wife persuaded me to fly with her to Dublin.
I remonstrated with her: “Fly?”
She insisted: ‘Dublin is a gás,
Dirty, ordinary, transcendental city – just like São Paulo!” (p. 30)

Nesse poema, Durcan experimenta dar voz ao nativo híbrido em um processo que o crítico cultural Homi Bhabha (1995) chama de transnacional e tradutório. O Brasil da virada do século XX é um espaço diaspórico, cuja cultura é transnacional porque está ancorada em histórias específicas de descolonização e deslocamentos: “Myself, I am Brazilian Armenian Orthodox”. O poeta narra como a cultura brasileira constrói seus próprios significados a partir do “outro”. Irlanda e Brasil se sobrepõem na voz da persona: a presença do casal brasileiro no jardim de rosas vermelhas, brancas e amarelas à meianoite em Dublin converge tangencialmente com a do ator japonês em São Paulo no Finnegans às nove da noite; James Joyce é o ponto de intersecção. O Ulysses revisitado provoca a circularidade de signos que são ressignificados ou traduzidos de formas diferentes em contextos e sistemas de valores culturais múltiplos, constituindo-se assim o hibridismo cultural. Questiona-se, então, como a produção e reprodução de fenômenos sociais e culturais transnacionais remetem a referências sócioculturais externas, incorporando e transformando a alteridade “originária” em novas estruturas deslocadas que possibilitam práticas culturais diferentes:

I thought
James Joyce is the only man in the world who comprehends women;
Who comprehends that a woman can never be adumbrated,
Properly praised
Except by a Japanese actor
In Finnegans Pub in São Paulo
Declaiming extracts from Ulysses. (p. 31)

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O que acontece com a noção de “autenticidade” de um signo em um novo contexto cultural? Como “autenticar” o hibridismo nas novas práticas culturais? As formas culturais sincréticas, crioulizadas, traduzidas, híbridas, representam a energia de ressignificação das culturas em intersecção, das identidades em processos de descentramento e reinvenção/construção de si mesmas; representam também, o movimento tradutório de símbolos e mitos de uma cultura em signos que se expandem em novos significados, remetendo sempre a heterogeneidade de suas origens.

A nosso ver, é este processo transnacional e tradutório o ponto alto da poesia de Paul Durcan. Como “autenticar” a realidade cultural multifária vista sob os vários reflexos de um prisma? Acreditamos que a poética de Durcan representa esse valor e força intrínseca multiaxial das culturas, transformando e ressignificando seus signos, atribuindo à poesia a função e o significado que Seamus Heaney (1995) imprime à arte poética. Ao receber o prêmio Nobel de Literatura, Heaney disse: a poesia é necessária como uma ordem, “verdadeira ao impacto da realidade externa e sensível às leis internas da existência do poeta” (p. 16). E insiste que o poema deve surpreender e que essa surpresa deve ser transitiva; a representação do mundo externo deve ser “o retorno do mundo a si mesmo”. A poesia de Paul Durcan, inserida na representação do cotidiano, ilumina os “novos” processos de construção de identidades culturais que dão vida e sentido ao mundo em si mesmo nas suas múltiplas releituras do passado.



Referências bibliográficas

BHABHA, Homi. Freedom’s Basis in the Indeterminate. In: RAJCHMAN, John (Ed.). The Identity in Question. New York & London: Routledge, 1995, p. 47-61.
BOLAND, Charlie. Greetings to Brazil in our friends! People, Place and Tradition in Paul Durcan’s Poetry. In: MUTRAN, M. & IZARRA, L. (Eds.). ABEI Journal – The Brazilian Journal of Irish Studies n. 3, São Paulo: Humanitas, June 2001, p. 119-34.
CHAUI, Marilena. Brasil. Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.
DURCAN, Paul. Greetings to Our Friends in Brazil. One Hundred Poems. London: The Harvill Press, 1999.
HALL, Stuart. New Ethnicities. In: MORLEY, David & Kuan Hsing Chen (Eds.). Stuart Hall. Critical Dialogues in Cultural Studies. London: Routledge, 1996, p. 441-9.
HEANEY, Seamus. Crediting Poetry. Ireland: The Gallery Press, 1995.
MITCHELL, Angus & Cantarino, Geraldo. Origins of Brazil. A search for the origins of the name Brazil. London: Brazilian Embassy, 2000.
MULHALL, Marion. Between the Amazon and Andes; or Ten Years of a Lady’s Travels in the Pampas, Gran Chaco, Paraguay and Mato Grosso. London: E. Stanford, 1881.
PRATT, Mary Louise. Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation. London: Routledge, 1992.




Izarra, Laura (org.) LITERATURAS ESTRANGEIRAS E O BRASIL: DIÁLOGOS. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2004.159-176.


Laura P. Zuntini de Izarra.
Professora Doutora do Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo.

Translated into English by P O’Neill (Vice President of the Institute) and Gloria Karam Delbim
--> www.irlandeses.org/0607izarra1.htm

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